A poesia nunca morre, nem há de morrer
Antes, quem morre é o poeta
E mesmo que assim seja
A quem ainda graceja
Pois morre-se um hoje
Nasce outro de seguida
Como quem sequer deixa arrefecer
O corpo do marido, que Deus o tenha,
Antes de pôr-se com galanteios vários
Para cima da viúva, que de coração enlutado,
Anseia pelo aconchego de um ombro amigo
Mas que, por vezes, acaba por ganhar um amante
Assunto é o que não falta ao poeta que
Com eles poderia encher páginas e mais páginas
Que nunca seriam suficientes, ainda havia de
Sobrar-lhe algumas quantas palavras por escrever
Verdadeiramente digo, o que falta aos homens
É a capacidade e a criatividade
Que transforma o infértil em produtivo como
Quem, com poder divino, opera um milagre
Nos regando com o mais doce dos néctares
Como quem rega a terra seca e escassa de chuvas
Como as destas nossas ilhas que mais
Parecem dez grãos de milho que
Há deriva, deixado por Deus ou pelos homens, ficou
Obrigando-nos, assim como diz o poeta, a
Aprender a comer pedras com as cabras
Mas assim como o poeta que não desiste
De nenhuma de suas inspirações
Somos um povo resiliente
Que dos seus homens e mulheres fortes
Vai buscar o ouro, a prata e o petróleo
Dos quais a esta terra não calharam nada
Talvez tenha sido melhor assim devido
A ganancia dos homens que tudo destrói
Em nome dos próprios interesses
Reprime-se o poeta, censura-se o poema
E morre-se a arte, a esperança e a vida
Que deles bebe e embriaga-se
Como se não houvesse um amanhã
Tamanha sede de sempre querer mais
Mendigando como quem em
Desespero implora por meras migalhas
De carinho e atenção de quem
Sequer sabe dar valor ao pão
Que se lhe é dado de bom grado
Por fim digo que quem despreza o poeta
Que com humildade faz a sua arte
E a oferece como que presenteasse
Ao mais digno dos reis
Morre de fome do conhecimento
Que este proporciona ao faminto
Ora embelezado por belas palavras
Enfeitando assim os versos e as estrofes
Com rimas variadas e infindáveis
Ora ácidas, capazes de apodrecer até
Mesmo os dentes de quem por descuido
Deixa-se apanhar de surpresa
Linda Nascimento